Jotta Junior sonha com um forró sem divisões:
“Bastaria uma placa dizendo: Aqui tem forró”
Jotta Junior, professor, coreógrafo e uma das referências do forró eletrônico e do piseiro em São Paulo, Jotta Junior defende que o futuro da dança passa pelo respeito às diferenças. Para ele, o forró é maior do que qualquer rótulo e deve unir praticantes do roots, universitário, piseiro e forró eletrônico em um mesmo salão.
Há quase 25 anos dedicando sua vida ao ensino da dança, o professor, coreógrafo e educador físico Jotta Junior poderia falar sobre técnica, musicalidade ou evolução dos passos. No entanto, quando perguntado sobre seu maior sonho dentro do universo do forró, a resposta foi outra. “Meu sonho seria um lugar onde todas as pessoas pudessem dançar juntas, sem perguntar qual estilo toca ali. Bastaria existir uma placa escrita ‘Aqui tem forró’. A pessoa entraria, convidaria qualquer outra para dançar e simplesmente aproveitaria a música.” A frase resume não apenas sua visão sobre a dança, mas também sua trajetória. Mais do que defender uma vertente específica, Jotta acredita que o forró é grande o suficiente para acolher todas as suas expressões, do roots ao universitário, do forró eletrônico ao piseiro, sem que uma precise diminuir a outra.
Jotta Junior e a Aliança Forrozeira
Segundo ele, é natural que cada pessoa tenha suas preferências musicais, mas isso não deveria criar barreiras entre os próprios forrozeiros. “Não existe melhor ou pior. Cada estilo tem suas características e suas qualidades. A gente viveria um mundo mais leve se deixasse de impor aquilo que considera certo ou errado.” Essa visão também explica o nome do projeto Aliança Forrozeira, criado em parceria com a professora Joy Bolzan. Realizado anualmente no aniversário da cidade de São Paulo, o evento começou com aulas de piseiro e forró eletrônico, mas a intenção é ampliar gradualmente o espaço para todas as vertentes da dança. Para Jotta, a palavra “aliança” representa exatamente essa aproximação entre pessoas que, apesar de dançarem estilos diferentes, compartilham a mesma paixão pelo forró.

Piseiro x Forró Eletrônico
Nascido em Guarulhos e criado na região de Pinheiros, em São Paulo, Jotta conheceu a dança no início dos anos 2000 ao ingressar como bolsista no Centro de Dança Jaime Arôxa. Seu principal professor foi Ivan Ribeiro, um dos nomes mais respeitados da dança de forró, que lhe apresentou não apenas a base técnica do forró universitário, mas também outras possibilidades de movimentação corporal que mais tarde o aproximariam do forró eletrônico e do piseiro. Hoje, reconhecido como uma das referências dessa vertente, ele faz questão de esclarecer uma dúvida frequente entre os praticantes. Para ele, musicalmente, piseiro e forró eletrônico não são a mesma coisa. “O piseiro nasceu dentro da cultura do forró, mas musicalmente ele não é forró. Já o forró eletrônico é forró. O interessante é que a comunidade do forró eletrônico passou a dançar as músicas de piseiro porque elas possuem uma estrutura muito próxima. Ou seja, a música mudou, mas a dança continua sendo a do forró eletrônico.”
Conselho: Ouça a música
A musicalidade, aliás, ocupa um papel central em seu trabalho como professor de forró. Jotta costuma orientar seus alunos a ouvirem música diariamente, muito antes de se preocuparem em decorar movimentos ou sequências. “A música faz parte da minha vida o tempo inteiro. Se estou em casa, estou ouvindo música. Se estou dirigindo, estou escutando música. Eu amo forró, mas também gosto de rock, flashback e vários outros estilos. Música é meu oxigênio.” Segundo ele, quem deseja evoluir na dança deve primeiro aprender a ouvir. Para os iniciantes, a zabumba funciona como a principal referência do ritmo. Já para quem está em um nível mais avançado, compreender as frases musicais permite interpretar melhor a canção e transformar a dança em uma extensão da própria música.
Conversa corporal
Essa capacidade de escutar também aparece na relação entre os parceiros. Jotta afirma que nunca inicia uma dança impondo seu próprio estilo. Pelo contrário: procura perceber como o outro corpo se comunica antes de construir qualquer movimentação. “Quando convido alguém para dançar, primeiro procuro ouvir o corpo da pessoa. Faço movimentos simples para que nós dois possamos nos entender. Cada novo par é uma dança completamente nova.” Para ele, dançar bem não significa executar movimentos complexos, mas estabelecer uma conversa corporal respeitosa, em que ambos os parceiros participam da construção da dança.

Evolução sem pressa
Ao falar sobre aprendizado, o professor reforça que a evolução não deve ter pressa. Cada aluno possui um ritmo próprio e comparar trajetórias costuma gerar frustração desnecessária. Essa percepção é ainda mais evidente entre homens que iniciam a dança já na vida adulta. Segundo ele, muitos chegam acostumados a dominar outras áreas da vida e encontram dificuldade para aceitar erros, correções e o tempo natural de desenvolvimento. “A aula de dança é um estudo. Você precisa estar aberto para aprender. Não existe idade para desenvolver novas habilidades.”
São Paulo: Polo de Forró
Na avaliação de Jotta, São Paulo tornou-se um dos maiores polos do forró no mundo justamente porque reúne pessoas vindas de diferentes regiões do Brasil. Essa diversidade acabou refletindo também nas casas de dança. Espaços como o Canto da Ema costumam reunir um público bastante plural, enquanto o Remelexo concentra uma presença maior de praticantes ligados ao movimento roots. Já locais como o CTN e o Restaurante Andrade atraem não apenas dançarinos, mas famílias inteiras interessadas na cultura nordestina, mostrando que a música, a gastronomia e a dança caminham lado a lado.
Remédio sem contra indicação
Ao definir o papel do forró na vida das pessoas, Jotta recorre a uma metáfora que resume sua filosofia. “O forró é como um remédio natural. Você pode tomar quantas vezes quiser que não traz efeito colateral.” Em um mundo marcado pela ansiedade, pelas telas e pelo isolamento social, ele acredita que a dança continua oferecendo algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: contato humano. “O forró cuida de mim há mais de vinte anos. Ele acalma o coração, devolve a felicidade natural e aproxima as pessoas. É algo mágico.”
Forró no mundo
Essa mesma força explica por que o forró ultrapassou as fronteiras brasileiras. Após diversas turnês pela Europa, Jotta testemunhou o crescimento da dança em diferentes países e viu estrangeiros aprendendo português para compreender melhor as letras e a cultura nordestina. Para ele, o fenômeno já é mundial. “Hoje tem forró no Japão, na Austrália, em Portugal, em praticamente toda a Europa. Não importa para onde você viaje: se procurar direitinho, vai encontrar um forró para dançar.”
Saiba mais sobre Jotta Junior: https://www.instagram.com/jottajunior?igsh=ZWFjOXI4NGtrZzJr

