Como a dança de forró criou novos sotaques sem perder suas raízes
Do Nordeste às grandes cidades, a dança de forró ganhou novos sotaques sem romper com suas raízes. O professor Evandro Paz explica como essa transformação aconteceu.
Quando se fala em forró, muita gente imagina que exista apenas uma forma “correta” de dançar. Mas basta frequentar bailes em diferentes cidades brasileiras para perceber que o corpo conta outra história.
O professor, pesquisador e coreógrafo Evandro Paz, um dos nomes mais conhecidos da dança de forró em São Paulo, acredita que a evolução dessa dança pode ser entendida como uma grande árvore: um tronco comum, fincado no Nordeste, que ao longo das últimas décadas deu origem a novos galhos, influenciados pelas experiências culturais de cada região.
Essa metáfora ajuda a compreender um fenômeno que aconteceu de forma espontânea. Para Evandro, não houve um momento em que alguém decidiu criar um novo estilo de dança. O que existiu foi um processo natural de encontros, viagens, festivais e trocas culturais.
“No Nordeste, cada ritmo possui sua própria maneira de ser dançado. Baião, xote, xaxado, coco e arrasta-pé carregam características próprias, profundamente ligadas à musicalidade”, explica o professor. Já em São Paulo, especialmente durante o movimento do forró universitário na década de 1990, jovens descobriram essa cultura sem trazer consigo toda essa tradição corporal.
Foi nesse contexto que surgiu uma nova forma de dançar.
O nascimento de novos sotaques corporais
Segundo Evandro, o forró universitário não nasceu como uma cópia do jeito nordestino de dançar. Pelo contrário.
Os jovens paulistanos passaram a construir seus movimentos a partir das referências que já conheciam. Havia influências da lambada, do samba-rock, da salsa e de outras danças presentes no cotidiano das grandes cidades.
O resultado foi um jeito próprio de interpretar a música.
Com o passar dos anos, esse novo universo continuou evoluindo. Festivais, viagens e encontros entre dançarinos de diferentes estados fizeram surgir novas influências, principalmente a partir de Itaúnas, no Espírito Santo, considerada por muitos um ponto de encontro da comunidade forrozeira do Sudeste. O intenso intercâmbio entre São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo fez nascer diferentes formas de expressão corporal dentro do forró.
Quando o estilo ganha um nome
À medida que essas características foram ficando mais evidentes, algumas escolas passaram a desenvolver metodologias próprias.
Foi assim que ganharam força nomes como Roots, marcado pelo intenso trabalho de pernas e pela dança mais próxima ao chão; Pé Descalço, de Belo Horizonte, conhecido pela energia, pelos movimentos amplos e pela capacidade de atrair novos jovens para o forró; além de outros grupos e escolas que passaram a construir identidades próprias.
Evandro observa, porém, que esses estilos compartilham uma mesma origem histórica.
É justamente para reunir esse conjunto de manifestações contemporâneas que ele e a pesquisadora Iris de Franco propõem o conceito de Forró Urbano.
Mais do que definir um novo estilo, a proposta busca oferecer uma maneira de compreender a evolução da dança de forró nas grandes cidades brasileiras após o movimento universitário.
Um conceito em construção
O termo “Forró Urbano” ainda não faz parte do vocabulário de toda a comunidade forrozeira.
Trata-se de uma interpretação desenvolvida por Evandro Paz e Iris de Franco para explicar um fenômeno que muitos dançarinos já percebem na prática: a multiplicação de sotaques corporais sem ruptura com a tradição nordestina.
Em vez de enxergar o Roots, o Pé Descalço, o estilo Remelexo ou outras escolas como movimentos isolados, o conceito propõe entendê-los como diferentes galhos de uma mesma árvore.
Essa leitura não substitui as identidades já existentes. Pelo contrário. Ela procura mostrar que todas elas nasceram de um processo comum de transformação cultural.
Uma dança viva
Talvez a principal contribuição da reflexão de Evandro seja justamente lembrar que o forró nunca foi estático.
Desde Luiz Gonzaga, passando pelos bailes nordestinos, pelo forró universitário e pelas escolas contemporâneas, a dança continua se reinventando sem perder suas raízes.
Como toda manifestação cultural viva, ela muda porque as pessoas mudam.
Novos lugares, novos encontros, novas músicas e novas gerações continuam escrevendo essa história.
E, olhando por essa perspectiva, talvez a pergunta deixe de ser “qual é o jeito certo de dançar forró?” para se transformar em outra, muito mais interessante:
Como uma mesma cultura consegue florescer em tantos sotaques diferentes sem deixar de ser forró?

